Simulação - O Advento

01.  Encontro de um estranho

Sexta-feira, vinte e cinco de outubro de mil novecentos e noventa e seis, exatamente às seis e trinta e sete da noite, quando John sai de casa a procura de seus amigos: Luís, Ciro, João e Pedro.
Sempre que ele saía por volta desse horário era quase certo encontrar seus amigos lá no portão o esperando. Só que dessa vez, para quebrar a notável rotina, ele não os viu esse dia.
Então após fechar o portão e começar seu curto percurso até a porta de entrada para sua casa, um pouco chateado e cabisbaixo, John caminha lentamente.
Após chegar a um certo ponto do caminho, John é surpreendido pela presença de um homem trajado em preto por completo usando uma capa cujo interior era vermelho.Ao se deparar com o tal homem trajado de modelo fúnebre, rosto pálido, olhos amarelados e estampando um sorriso forçado, John toma grande choque.Mas, sabiamente, procura disfarçar de forma que o estranho e amedrontador homem não percebe.
Esbanjando um sorriso simples e insosso como estratégia para fuga, John tenta caminhar para correr. Porém, astutamente, o estranho o segura pelo braço com a intenção de apavorá-lo e o questiona sussurrando com um sorriso:
-              Por que sair com tanta pressa? Eu estou causando algum medo a você?
-              N-não! I-imagina.
-              Ah, claro. Desculpe-me a falta de educação. Eu me chamo Leonardo. E você? Como se chama?
-              J-John! Me desculpe...e-eu preciso ir...Agora.Licença.
Leonardo, com pouca paciência, aperta o braço de John e com um olhar perverso fala rangendo e sussurrando:
-              Confesso que tentei ser razoável. Mas você esnobou e agora vai pagar ter agido assim dessa maneira, seu imbecil!
Leonardo então mostrou as presas no momento de um franzir de ódio e com seus olhos arregalados hipnotizou John.
E na hora que ele vai mordendo John, Caroline, Sua irmã de sete anos, de repente vê o incidente e, assustada grita.
Leonardo, por um passe de magia, rapidamente desvanece levando John consigo.
E nesse exato momento, Ciro que havia escutado grito de Caroline, vem correndo e pergunta assustado:
-              O que foi que aconteceu?
-              E-eu vi um vampiro mordendo o pescoço do John!
-         O que aconteceu, minha filha?-Chega dona Abigail, mãe dela, perguntando bastante assustada.
-              Mãe! Um vampiro mordeu o pescoço do John!
-              Bem que eu te avisei pra ficar assistindo filme de terror ontem. Olha só no que dá...
-         É mesmo! Você anda assistindo televisão demais?-Fala Ciro após entender a atual situação.
-         Mas é verdade! Eu vi com esse par de olhos que a terra há de comer!-Insiste Caroline.
-         Está bem! Eu acredito. Até logo!-Fala Ciro indo embora.
-         Está bem, dona Caroline! Vá já tomar banho pra jantar!-Fala dona Abigail chateada com tal insistência.
-         A propósito, cadê o John?
-         Eu disse; “Ele sumiu com um vampiro!”.
-         Já pro banho!
-         Mas...
-         Nenhuma palavra!-Fala dona Abigail e Caroline entra – John? John!Você está aí nos fundos?
Pergunta dona Abigail indo vagarosamente pelo corredor ao lado da casa até os fundos sozinha.
-         Estou aqui, mãe!-Responde John logo atrás dela dando-lhe um grande susto.
-         Ai! Quer me matar do coração, menino!?
-         Desculpe mãe. -Lamenta John sorrindo.
-         Vamos! Já está na hora do jantar!
Na mesa, todos estão reunidos e dona Abigail coloca o jantar para cada um. John olha para seu prato com uma certa expressão de contrariado e comenta abusadamente:
-              A minha sopa está com cheiro de alho.
-              E daí!Pergunta Caroline.
-              Eu detesto alho...
-              Você deve ta brincando. É a comida que você mais
gosta .Você ta agindo estranho hoje.Eu, hein!!Diz Caroline admirada sem tirar o olhar da expressão misteriosa de John.
      -     E você deveria encher sua boca de comida e queimar essa sua língua solta para ver se para de ficar falando besteiras.
Comenta John em um sussurro macabro após se sentir incomodado com o que Caroline falou sem desviar o olhar do seu prato.Nesse instante os três se admiram com a atitude insólita de John para com sua irmã e faz-se um brusco silêncio.
            -           O que significa isso John?Você nunca falou dessa forma com a sua irmã. Sempre foi unido com ela. Que bicho te mordeu, menino?Pergunta dona Abigail intrigada.
            Sem encontrar uma justificativa por menor que fosse a fim de convencê-los do seu suposto equívoco, John dá uma rápida observada em cada um dos três que o olham admirados e fala levantando-se da cadeira:
            -           Acho que tem alguém sobrando nessa mesa. É melhor eu fazer o favor de me retirar. Com licença...
-              Pode continuar sentado aí!E só levante-se após
terminar, gostando ou não da comida.Sem uma reclamação.Não vou tolerar seus próximos resmungos infantis, entendeu bem!? Fala Sr. Fernando pressionando a ponta do dedo indicador sobre a mesa indignado com a atitude audaciosa de seu filho em sua presença sem tirar os olhos dos olhos de John.
            -           Velhote desgraçado!Quem ele pensa que é pra ficar ditando ordens e falar comigo nesse tom?Mas tudo bem. Ele vai me pagar por essa!Pensa John voltando ao seu lugar lentamente após ter desafiado Sr. Fernando com o olhar.
            ...Após o término do jantar, sentindo-se contrariado, na presença dos três John comenta com uma forçada expressão de arrependimento lançando seu olhar para o chão:
            -           Me desculpem pelo que aconteceu. Eu não sei por que agi daquela forma...
            Comovidos com a bela atitude de John os três sorriem surpresos e D. Abigail fala aliviada:
            -           Está tudo bem, filho!Se você estiver com algum problema que esteja te incomodando muito é provável que esse possa ter sido o motivo. É compreensível.
            -           Só não esqueça que você tem uma família que vai estar do seu lado como sempre esteve. Eu sou seu pai e você pode contar comigo quando quiser pro que quiser. Você pode dividir seus problemas comigo, certo?!Fala Sr. Fernando sorrindo e passando seu braço sobre os ombros de John.
            -           E da próxima vez tenha mais cuidado com o que vai desejar pra mim e pra minha língua. Você pegou pesado!Fala Caroline chateada dando uma leve tapinha no braço de John com a intenção de descontrair.
            Em seguida John corresponde com um pequeno sorriso.
            Alguns minutos depois John prepara-se para sair e fala:
-              Pai. Vou dar uma volta e venho logo.
-              Esteja de volta antes das nove, tudo bem!?
Propõe Sr.Fernando preocupado com o horário.
     -      Essa não!Superproteção ninguém merece... Pensa John e logo após comenta sorrindo-Pode deixar. Até mais.
    -       Por favor, não se atrase. Não vou gostar de saber que você me desobedeceu. Tome cuidado!Adverte Sr. Fernando.
   -        Não esquenta, pai. Ta tudo bem!Fala John se despedindo após fechar o portão vagarosamente meio chateado com as regrinhas “desnecessárias” impostas pelo seu pai.
            Ainda de frente ao portão olhando para seu pai, John faz um pequeno aceno com a mão e sai logo em seguida.
            Logo Sr. Fernando corresponde sorrindo e balançando a cabeça negativamente.

02.  A usina

No caminho John, coincidentemente cruza com João e Pedro que, um pouco chateados procuram um modo de se explicar. E João começa suas lamentações:
-     John, foi mal, cara. Mas eu não pude ir porque tava fazendo a tarefa de casa e o chato do meu pai disse que eu só poderia sair depois que terminasse tudo...
-     E eu não pude ir porque a minha “bela irmãzinha” quebrou um dos vasos de porcelana da minha mãe e acabou colocando a culpa em cima de mim. Eu fiquei furioso e acabei dando um belo cascudo nela. Sério!E o mais incrível foi que minha mãe e meu pai acabaram acreditando. Ela foi uma ótima atriz!Bem, no final das contas acabou sobrando pra mim. Apanhei do meu chefe. E olha que, quando meu pai pega, ele não bate, espanca. Ai!Minhas costas ainda tão doendo até agora pra caramba. Fala Pedro com a mão nas costelas se queixando das incômodas dores.
-     Que otários, hum... Comenta John em seus pensamentos.
-     Qual é, John!?Vai ficar só calado ouvindo a gente?Diz alguma coisa!Fala Pedro inconformado com o silêncio de John.
-     E aí!?Vamos zanzar, dar uma volta, “diversão”?Propõe João sorrindo para tentar descontrair depois do que passou.
-     Diversão?Por aqui?Como?Aliás, o quê, por exemplo?Pergunta John com um sorriso sarcástico tentando imaginar um modo, dando uma rápida olhada no lugar.
-              Bom, que tal na... Usina abandonada?Sugere Pedro.
-              Quê???Pergunta João assustado.
     -      É! Na usina abandonada. Por que não?Sorri Pedro insistindo e fazendo brotar um sorriso macabro no rosto de John que outrora estava bastante entediado.
-              A e-essa hora?Persiste João olhando os dois.
-              Ué?! Qual o problema?Não vá nos dizer que você está com medo, está?Pergunta John sorrindo admirado.
-              Não é bem isso!
-              Então é o que?Pergunta Pedro um pouco chateado.
-              Bem, é que... Lá ta escuro... Sorri João envergonhado e meio sem graça fixando seu olhar para o chão.
-              Meu Deus, que idiotice... Comenta John virando os olhos para cima numa expressão de decepção.
-              Seu medroso!Lá ainda tem energia. Esqueceu da última vez que a gente foi?Fala Pedro tentando o convencer.
-              M-mas isso foi há quase um mês!Preocupa-se João.
-              Que diferença faz?Não tem muito tempo.Além do mais, se não tiver a gente dá um jeito.Pior é ficar aqui!Fala John já aborrecido tentando convencê-lo.
-              Então? Vamos ou não vamos?Pergunta Pedro.
-              Ainda acho que a gente não deve ir. Não é uma boa idéia!Fala João já desistindo de insistir.
-              Ta decidido!Vamos logo seu medroso!Fala Pedro indo a destino a usina e puxando o braço de João.
Chegando lá, um local aparentemente inóspito, sujo, escuro e esquisito. Na frente havia uma bela árvore para quebrar um pouco o contraste sombrio da fachada da casa: Um muro caindo aos pedaços, um portão de ferro enorme amassado e enferrujado entreaberto por uma corrente velha e solta, provavelmente pelos meninos por terem estado outrora naquele local e, de fundo, o suave som de grilos e sapos para quebrar o silêncio temeroso.
Ás vezes quando a brisa forte do vento batia, balançava levemente o portão provocando rangidos atemorizantes.
Ao se deparar com tudo isso, João, admirado com aquele cenário nada agradável a seus olhos, engole em seco.
-           Uh... Esse lugar me dá arrepios numa hora dessas.
 Sussurra Pedro paralisado e de olhos arregalados.
-           Uau! Isso é o que eu chamo de um “belo lugar!”. Sorri John bastante encantado com tudo aquilo que para ele seria uma paisagem de encher os olhos.
-           Estranho. Do jeito que você ta falando nem parece que já teve aqui há quase um mês. Fala João olhando meio desconfiado para John e logo desviando o olhar para Pedro que aparentemente tem a mesma impressão.
-           É que eu só tinha entrado. Mas nunca tinha prestado atenção em como esse lugar é tão... Agradável. Sorri John ainda sem tirar seus olhos da fachada da casa.
-           Hã?Agradável?Como assim?John?Ta tudo bem?É você mesmo?Pergunta João preocupado com tal reação esquisita.
-           John?Ta tudo bem?Pergunta Pedro preocupado o olhando e se aproximando lentamente de João.
            Intrigado com a reação temerosa dos dois John fala:
-           Quê que foi?Tão me olhando assim por quê?
-           Nada. A gente só ficou um pouco preocupado com a sua reação e seu comentário. Responde Pedro com um pequeno sorriso na intenção de confortá-lo.
-           É... Você ta agindo estranho. Complementa João.
-           Estranho?Eu?Fala sério!!Vocês agora tão me ofendendo com essa desconfiança absurda!Fala John meio irritado olhando para os dois incessantemente.
-           É. Tem razão. Foi besteira nossa. Desculpe!Sorri Pedro se convencendo de que foi só impressão sua.
-           Não sei não!Não me convenceu. Insiste João virando levemente a cabeça e olhando John de lado.
-           Você além de medroso é um paranóico. Fica só imaginando bobagens! Fala John debochando da cara de João.
-           Mas não sou burro. Não pense que vai conseguir me enganar se por acaso estiver tentando. Fala João o encarando.
            Nesse exato momento John se altera e agarra João pela gola da camisa falando com um olhar enfurecido:
-           Fica na tua seu imbecil!Eu não gosto da maneira que você ta me olhando!É melhor você parar com isso!
-           Ah é?Por quê?Isso ta te incomodando?João ironiza.
-           Ei!Ei!Quê que é isso aqui agora?Será que alguém pode me explicar essa rixa inútil?Pergunta Pedro admirado separando os dois no ato.
-           Por que você não pergunta pra esse cara aí?Fala João.
-           Segura a tua onda seu panaca!Ameaça John apontando o dedo próximo do rosto de João.
-           Senão você vai fazer o quê?Me bater?João provoca.
-           Parou!!Cala essa boca João!Isso já passou dos limites!Qual é o problema de vocês dois?John.Fica frio, cara!Você nunca foi de brigas.Que stress é esse agora?Será que a gente veio aqui pra isso?Fala sério!Fala Pedro bastante aborrecido e intrigado com aquela situação.
            Então John recompõe-se e arrependido concorda meio sem graça: -  Tem razão!Me desculpa.Eu perdi a cabeça.
-           Ah é?Então procura ela aí pelo chão que deve ta por perto!Fala João insistindo nas provocações.
-           Cala essa droga dessa boca, João!Agora é a mim que você ta irritando!Chega!Grita Pedro olhando bastante enfurecido para João que também se recompõe baixando a cabeça e fazendo John dar um pequeno e discreto sorriso pela bronca que levara de Pedro.
-           Deixa, Pedro!Fica frio você agora. Esse cara não é tão valente?!Que tal um desafio?Propõe John sorrindo.
-           Pode mandar que eu aceito, seu esquisito!Fala João.
-           Hum!Nossa!Como ele está valente agora!Nem parece aquele medroso de minutos atrás. Sorri John debochando.
-           John!Adverte Pedro o olhando.
-           Tudo bem!Vocês não disseram que essa usina tem energia?!Então eu quero ver você ir até a chave geral agora sozinho e ligar as luzes. Que tal?Desafia John.
-           Lá dentro?Sozinho?Pergunta João admirado.
-           Ué?! Qual o problema?Não vai dizer que...
-           Ta legal!Eu topo. Aprecia agora, seu mané!Sorri João entrando na usina após ter cortado a frase de John.
-           Toma cuidado, João!Pode ser perigoso. Fala Pedro preocupado olhando desconfiado para John.
            Após João ter entrado John e Pedro ficam no portão o esperando. Então Pedro fica observando John discretamente enquanto ele fixa seu olhar para escuridão com um pequeno sorriso macabro. Sem tirar os olhos da escuridão, John pergunta:
-           Quê que foi Pedro? Por que ta me olhando assim?
Admirado com a atitude repentina de John Pedro responde.
-           Nada. Só achei que você não precisava ter feito isso com o João. Afinal ele também é seu amigo apesar dos defeitos que tem. Ele sempre foi meio medroso, mas você nunca ligou pra isso. Tem certeza de que não tem nada de errado?
-           Tenho. Não sei por que você encucou com isso agora. Há pouco você tava convencido de que tava tudo bem. Por que já mudou de idéia?Você está contra mim também?Pergunta John o olhando com decepção se fazendo de vítima para convencê-lo.
-           Claro que não! É que...
-           Ei!Pedro!Eu to perdido aqui!Onde que fica essa droga dessa chave?Me da uma ajuda aí!!Grita João após ter interrompido sua conversa com John.
 -          Tá legal!Fala Pedro cruzando o portão para ir até João.
            De repente John estende o braço o impedindo de entrar:
 -          Ei!O que pensa que vai fazer?
            Surpreso Pedro o olha quase gaguejando e fala:
-           E-eu vou ajudar ele. Ele não consegue fazer isso sozinho.
-           Ele precisa aprender. Por que você não fica só dando dicas daqui do lado de fora!?Além do mais, o que pode haver de anormal nesse escurinho insignificante?
            Contrariado com os argumentos de John, Pedro permanece do lado de fora e grita para o escuro onde João está:
-           Tem umas caixas de madeira cobertas por uma tela de pano. Vê consegue encontrar!
-           Ta legal. Espera aí... Au!!!De repente João se queixa.
-           João!O que foi que houve!Ta tudo bem? Pergunta Pedro preocupado após ter ouvido o barulho de algo parar João.
-           Ta!Eu só tropecei em alguma coisa. Algum ferro. Não tenho certeza. Ei! Acho que encontrei as caixas cobertas! E agora? O quê que eu tenho que fazer?
-           Ótimo! Do lado das caixas tem uma coluna. È nessa coluna onde se encontra a chave!Agora ta fácil!
-           Certo!Espera aí!
            Pedro e John esperam alguns segundos...
-           Achei!!Pronto!!Grita João comemorando.
            Então as luzes se acendem de repente e os dois se olham sorrindo. John fala:-          Viu só?!Você só tem que confiar um pouco mais nele. Porém, confesso que não acreditava muito no potencial dele até agora. Ele me surpreendeu também!
-           O João é o cara!Sorri Pedro feliz pelo progresso.
            De repente João grita apavorado assustando os dois.
-           O que foi isso??Vamos lá!!Fala Pedro entrando logo em seguida com John.
            Chegando lá, os dois se deparam com uma  enorme caranguejeira pregada na camisa de João localizada na parte do peito andando vagarosamente em direção a sua cabeça.
-           Tira esse troço de cima de mim!!Grita João sacudindo a camisa e caminhando para trás rapidamente. De repente João tropeça no mesmo objeto que outrora havia tropeçado: Uma barra de ferro enferrujada. O mesmo levara João de costas ao chão fazendo-o apavorar-se cada vez mais com a tal aranha.
-           Calma João! Fica quieto que eu vou dar um jeito!Fala Pedro procurando algo para retirar a aranha que continua a subir.
 Logo John toma a frente de Pedro falando:
-           Pode deixar que eu  ajudo!Para de se mexer.
            Então, para o espanto dos dois, John pega a aranha com as próprias mãos e João corre para perto de Pedro. E os dois ficam assustados observando John que fica apreciando o animal enquanto se mexe sendo segurado por ele.Encantado John fala:
-           É um belo animal. Apesar de muitos o acharem nojento e asqueroso pela sua aparência, é um animal admirável. Nunca atacam por prazer. Só quando se sentem ameaçados ou quando estão caçando.Óbvio que não caçam nós humanos.Apenas outros insetos.São frágeis.Dificilmente resistem a uma queda de uma altura...Notável.Temos que ser bastante cuidadosos para não o machuca-lo.Parabéns, João.Você foi um verdadeiro cavalheiro por não deixa-la se machucar.
 -          Que cara mais... Bizarro. Sussurra João impressionado
segurando firme  o braço de Pedro que também fica imóvel.
            Percebendo a reação dos dois, John fica um pouco sem graça e, olhando em volta da usina, fala sorrindo:
-           Bom, vou procurar um lugar seguro para colocá-la. Deixe-me ver... Ah! Ali seria o lugar ideal. Um momento. Eu volto logo. Fala John indo até o local avistado por ele: Um velho armário entreaberto no canto da usina situado a uma certa distancia dos dois.
            Logo, João sussurra no ouvido de Pedro:- Vamos dar o fora daqui, Pedro. Eu tenho certeza absoluta que esse daí não é o John que a gente conhece.
-           Mas a gente não pode deixar ele sozinho aqui!Sussurra Pedro tentando convencê-lo do contrário.
-           Ta maluco?A gente é que não pode ficar sozinho aqui com esse... Esse cara esquisito, metido a biólogo!
            Percebendo, ainda de costas, John pergunta olhando de lado: - O que tanto vocês dois cochicham, hein?!
Nesse exato momento, João vai até a coluna e desliga a chave geral correndo em seguida puxando Pedro pelo braço:
-           Vamos!Fala João. E os dois saem da usina em disparada.
            Ao chegarem ao portão, para o desespero dos dois, John aparece de repente com um olhar macabro e diz sussurrando:
-           Ora, ora!Que belos amigos vocês são. Que coisa feia o que vocês fizeram. Me abandonaram naquela escuridão.Sabem o que pode acontecer agora depois do que vocês me fizeram?
-           Corre, Pedro!Grita João apavorado.
            Então, astutamente, John segura Pedro pelo pescoço o deixando asfixiado e se debatendo tentando se soltar.
            João, no auge do seu desespero, sem saber o que fazer sai correndo e deixa Pedro a mercê de John. No meio do caminho, ainda correndo, João começa a chorar excessivamente pensando:
-           O Pedro! Meu amigo!Eu deixei ele sozinho com aquele cara. Por que eu fiz isso? Por que eu não fiquei lá para ajudá-lo? O meu amigo não! Eu sou um fracasso como amigo!

03.  Em casa

Chegando em casa, John se depara com seu pai nada satisfeito com seu atraso e então Sr. Fernando começa seu sermão muito furioso olhando para John que está cabisbaixo:
-           Você está bastante atrasado. Pode me dizer o que aconteceu?Onde esteve?Com quem esteve?O que esteve fazendo até essa hora?
-           Estive aqui por perto com meus amigos...
-           E o que foi que te pedi antes de você sair?Será que eu te pedi demais?É tão difícil pra você obedecer a uma ordem minha?Mesmo sabendo que o que faço é para o seu próprio bem?!Será que você me odeia tanto a ponto de ficar quebrando regras, rapaz?Me diga onde estou errando com você?
            E John permanece calado e cabisbaixo.
-           Você não vai me dizer mais nada?Pergunta Sr. Fernando inconformado com tamanha indiferença.
-           Me desculpe mais uma vez, pai. O senhor está certo. Vou procurar não errar tanto daqui pra frente. Sussurra John triste.
            Comovido com a reação de John Sr. Fernando o abraça beijando sua testa e diz com um pequeno sorriso:
-           Tudo bem!Agora vá escovar os dentes pra dormir.
            Minutos depois de escovar os dentes, John passa pelo quarto de sua irmã Caroline no momento em que ela está fazendo uma prece singela e sussurrante:- Meu Deus, por favor, proteja minha mãe, meu pai e eu. Eu tenho quase certeza de que aquele vampiro deve ter mordido o John e ele se tornou esse cara esquisito e grosso como nos filmes que eu às vezes assisto escondida da mamãe. Eh desculpe por isso... O problema é que ninguém acredita no que eu disse e não consigo pensar em nada. Deus, por favor, me de uma maneira de provar a todo mundo que eu não to mentindo. Que eu não to imaginando coisas como eles pensam. Espero que isso seja apenas um pesadelo e que eu acorde logo, pois estou com um mau pressentimento. Alguma coisa me diz que esta para acontecer algo muito grave e isso esta apertando meu coração. Meu Deus eu agradeço por escutar a minha oração e espero que seja feita a Tua vontade. Ah, e perdão pelas coisas de errado que tenho feito. Amém. Fala Caroline que outrora estava de joelhos e levanta-se vagarosamente para deitar-se em sua cama.
            Depois de deitar-se na cama Caroline fica olhando fixamente para o teto enrolada em seu lençol até o pescoço.
            De repente John aparece no quarto através de magia e a deixa muito nervosa e de olhos arregalados. John percebe que Caroline está aponto de gritar e rapidamente fecha sua boca sussurrando com um sorriso malvado: - Nossa. Que cara de assustada é essa? Até parece que viu alguma assombração. Vamos fazer um trato: Você fica de bico calado e eu lhe digo o meu real propósito e ainda posso lhe assegurar de que não vou lhe fazer nenhum mal se assim você continuar. Caso o contrário eu mato você, sua família e desapareço num piscar de olhos assim como apareci. Você sabe que está em completa desvantagem porque ninguém acredita na sua palavra. Todos pensam que você não passa de uma lunática que vive assistindo filmes de terror. Não vai fazer diferença alguma se você gritar, pra falar a verdade. Eu desapareço e ninguém vai lhe ouvir se você tentar se explicar. Eu não tenho nada a perder. Então? Quer ou não quer aceitar minha condição?
            E Caroline sem poder falar, acena afirmativamente a sua cabeça assegurando John de sua palavra.
-           Muito bem. Então eu vou lhe soltar. Fala John soltando Caroline vagarosamente e a observando atentamente – O que eu pretendo fazer é muito simples...
            Nesse momento dona Abigail o surpreende chegando de repente e apóia seu ombro na porta do quarto com um olhar desconfiado e admirado fixado em John: - Posso saber o que os dois conversam tanto a essa hora da noite?
            Então, preocupado, mas tentando disfarçar, John pensa rápido em um modo de se explicar olhando para Caroline e para ela constantemente: - B-bem... É que eu resolvi vir me desculpar pelo que houve no jantar pessoalmente e finalmente ficou tudo esclarecido entre nós dois, não foi Caroline?!
            Admirada com o cinismo e a frieza impressionante de John, Caroline responde rapidamente: - Hã?! Ah, é...
            Aliviado com a reação de Caroline, John abre um pequeno sorriso sem graça e continua: - Viu só?! Ta tudo bem. Bom, como a gente havia se entendido, ficamos conversando sobre os bons tempos que passamos. Um momento nostálgico.
-           Que fofo, meu filho!Você e sua irmã sempre se deram bem e continua assim até hoje. Eu me orgulho de vocês dois.
Sorri dona Abigail os olhando serenamente.
-           Estávamos lembrando o dia em que a Caroline foi passear no zoológico e...
-           No zoológico? M-mas a Caroline nunca foi ao zoológico.
Fala dona Abigail estranhando após ter cortado tal comentário.
-           Não foi?
-           Não.
            Aborrecido, John pensa: - Que droga. Por que foi que disse uma idiotice dessas? – Logo ele contorna com um sorriso:
-           Bom, então eu talvez deva ter sonhado.
-           Claro. Isso acontece. Já aconteceu até comigo. Sorri dona Abigail aliviada após o mal-entendido ter sido esclarecido.
-           Ah foi?! Pergunta John levantando as sobrancelhas.
-           Foi. Mas agora já está tarde. Amanhã eu explico. Agora vamos dormir John. Vá para o seu quarto e deixe sua irmã dormir. Venha. Fala dona Abigail saindo. E John que estava agachado perante a cama de Caroline, levanta-se e fala a mirando com um olhar macabro: - Boa noite Caroline.
            Então John sai lentamente fechando a porta e Caroline puxa o cobertor cobrindo metade de sua face fixando seu olhar assombrado para o teto em meio à escuridão do seu quarto.

             04.  O caminhão de lixo

No dia seguinte, sábado, exatamente as oito e vinte e cinco da manhã, como de rotina, o caminhão de lixo passara por lá.
E nesse caminhão vem sempre o amigo de John chamado Jair. O mesmo, ao chegar pergunta para John sorrindo:           
-     E aí brother!? Como tem passado a semana? Tem estudado muito?
Surpreso com tal reação, John o olha sério e admirado sem dizer uma palavra e o deixando meio sem graça.
-     Pela sua cara séria deve ter tido uma semana bem corrida e acompanhada de alguns aborrecimentos, hein!?
-     Engano seu. Eu tive uma ótima semana. E pela sua cara, apesar de sorridente, é possível que eu não possa dizer o mesmo. Responde John com um sorriso insosso desmanchando o simpático sorriso de Jair e o deixando admirado.
Nesse exato momento Caroline chega fazendo brotar um sorriso novamente no rosto de Jair que pergunta:
-     Bom dia, pequena princesa!
-     Bom dia, Jair. Como vai? Pergunta Caroline sorrindo.
Logo John entra discretamente, meio sério e cabisbaixo falando:  -   Ainda tem mais um saco no quintal. Vou buscá-lo. Não vou demorar.
Após entrar sendo observado pelos olhares atentos de Jair e Caroline, meio intrigado, Jair se aproxima de Caroline e pergunta em um sussurro curioso:    -    Está tudo bem com ele?
-     P-por quê? Ele fez alguma coisa estranha?
-     Não sei. Pode ter sido impressão minha, mas, acho que ele não foi gentil. Ele parece não estar bem. Nem parece ser o John que eu conheço.
-     Engraçado. Então somos dois. Eu tenho a mesma impressão. Mas como não tenho certeza do real motivo prefiro ficar calada. Não esquenta com isso. Pode até ser despeito da parte dele por ver que você é um cara muito legal e popular.
Comenta Caroline com um pequeno e sincero sorriso na intenção de confortá-lo, o fazendo sorri aliviado e lisonjeado.
-     É! Você é, de fato, uma princesinha. Até se comporta como uma. Obrigado pela força, majestade. Sorri Jair a reverenciando lentamente. Nesse exato momento o motorista soa a buzina do caminhão para alertá-lo.
-     O garoto foi buscar um saco no quintal. Já está voltando! Grita Jair e, nesse exato momento, John chega com o saco. Na hora em que John lhe entrega o saco dona Abigail chama Caroline que entra em seguida se despedindo de Jair:
-     Tchau, Jair! Até a próxima!
-     Até a próxima, majestade! Responde Jair saindo com o saco sem tirar o olhar desconfiado de John que também o olha.
Então Jair joga o saco no carro e de repente escuta um miado de desespero de um gato. Assustado, ele olha para John que estava com um sorriso macabro e pergunta: - O que foi isso? Logo, Jair volta seu olhar o fixando no saco e de repente vê algo se mexendo sem parar. E novamente escuta o mesmo miado de outrora: - M-meu Deus!
Jair volta seu olhar assombrado para John supondo que aquilo, de certa forma, possa ter sido obra dele por ver e sentir maldade em seu olhar obscuro.
Jair, imóvel, volta seu olhar para o saco e vê o mesmo se mexendo prestes a ser esmagado pelo martelo amassador do caminhão. Logo John quebra seu estado imóvel comentando:
-     É melhor se apressar...
Sem esperar, Jair sobe no caminhão erguendo o braço para alcançar o saco. Nesse momento, John avermelha os olhos e, apenas com o olhar o arremessa para dentro do carro.
Sem ter como sair, Jair começa a gritar desesperado por socorro enquanto o martelo ia o imprensando cada vez mais.
Mas, infelizmente ninguém podia ouvir devido ao barulho intenso do caminhão e os outros ajudantes estavam distraídos pegando sacos nas outras casas. Nesse intervalo, John contempla sua desgraça apoiado no muro com um sorriso diabólico. E para a desgraça completa de Jair, o martelo o esmaga o matando instantaneamente. Após o ciclo maldoso de John ter se completado, ele finalmente resolve pedir por socorro.
-     Socorro! Alguém! Ajude! Socorro!
Logo, John vai até o meio da rua para chamar a atenção dos outros ajudantes e continua a gritar por socorro.
Então, finalmente eles percebem e assustados, soltam os sacos e vem correndo para ver o que houvera acontecido.
Ao se depararem com a cena de Jair, eles se assombram imobilizando-se. Porém, um deles corre até a frente do caminhão e grita incessantemente fazendo gestos bruscos para o motorista desligar o motor. Assustado, após ter compreendido, o motorista desliga o motor e desce em seguida para saber o que possa ter acontecido de tão grave segundo o que ele supunha.
-     Meu Deus! Mas o que foi que aconteceu? Pergunta o motorista desesperado com as mãos na cabeça.
-     Não sabemos! Estávamos coletando sacos quando de repente esse garoto nos chamou desesperado gritando por socorro! Fala um dos ajudantes tentando se explicar.
-     O que a gente vai fazer agora? Como é que a gente vai explicar uma desgraça dessas? Pergunta o motorista gritando.
Logo, Sr. Fernando, Caroline e dona Abigail chegam após terem escutado os gritos. E Sr. Fernando pergunta:
-     Mas o que está acontecendo? Que gritaria é essa?
Quando os três saem de casa logo se deparam com a tal cena bizarra. Quando Caroline vê o estado lamentável em que Jair se encontrava, assombrada, começa a gritar sem parar.
Apavorado com a cena, Sr. Fernando apenas tem a ação de abraçar Caroline e tampar-lhe os olhos. Dona Abigail também grita após o choque de ter visto tudo aquilo.
-     Mas o que diabos foi que aconteceu por aqui?
Pergunta Sr. Fernando boquiaberto.
-     Não sabemos explicar. Foi tudo de repente. Quando viemos prestar socorro já era tarde demais! Fala um dos ajudantes inconformado tremendo-se sem parar.
-     Mas parece que o garoto viu tudo! É possível que ele saiba explicar o que aconteceu! Fala o motorista referindo-se a John que logo se preocupa em como irá explicar.
-     Então, John?! O que você tem a nos dizer? O que realmente aconteceu? Pergunta Sr. Fernando inconformado.
-     E-eu não sei bem como explicar! Ele subiu pra pegar um saco de volta daí se desequilibrou e acabou caindo carro adentro. Eu não sabia o que fazer! Foi horrível! Fala John apavorado tentando explicar a todos.
-     Mas porque ele iria pegar um saco de lixo de volta? Por que razão? Pergunta um dos ajudantes meio intrigado.
-     E-eu não sei! Ele me disse que havia escutado um miado de gato e que tinha visto um saco se mexendo!
-     Miado de gato? Saco se mexendo? Meu Deus! Ele só podia estar ficando maluco! Fala o motorista revoltado.
-     Você deve estar muito abalado por tudo o que viu filho! Venha! Vamos tomar algo pra se acalmar! Fala dona Abigail bastante preocupada com John o confortando com um simples abraço e carícias no rosto, o levando para dentro de casa.
-     Tem razão. Procure se acalmar, garoto! Deve estar sendo muito difícil pra você suportar tudo isso. Fala o motorista
-     Isso mesmo. Acalme-se, filho. Fala Sr. Fernando.
Então John e dona Abigail entram e Caroline os acompanha logo em seguida enquanto Sr. Fernando conversa com os outros
Caroline, desconfiada e inconformada com tal versão, fixa seu olhar ainda assustado em John. Enquanto John está sendo consolado por sua mãe, percebe o olhar impertinente de Caroline e, incomodado, a repreende com um olhar furioso.
Assustada com tamanho ódio vindo de apenas um olhar, Caroline se intimida e vai rapidamente para seu quarto.
Então dona Abigail, que havia ido até cozinha preparar algo, volta e, carinhosa, fala lhe dando o copo:
-     Toma. Beba isso, filho. Você tem que se acalmar.

05. Diálogo insólito

      À tarde, já passando das três horas, chegam Luís e Ciro na casa de John, bastante abalados após terem sido informados do incidente ocorrido. Os dois vieram com a intenção de consolá-lo. Tentando encontrar uma melhor forma de começar, Ciro, meio sem graça e um pouco cabisbaixo, lamenta-se:
-     Bom... Eu sinto muito pelo que aconteceu com o seu amigo Jair, John. Acho que posso imaginar como você pode estar se sentindo agora mesmo. Deve estar sendo muito difícil. Sei que a amizade dele vai te fazer uma falta grande...
-     Nada que eu não possa superar no dia seguinte... Sussurra John os olhando com um olhar frio e obscuro.
Logo os dois se assombram com o tal comentário e, inconformado e incerto do que tivera ouvido, Luís pergunta:
-     O que foi que você disse? Foi isso mesmo que entendi?
-     Nada. Esquece. Eu quis dizer que é algo que eu não posso superar no dia seguinte. Que na verdade vai demorar um certo tempo... É isso... Fala John mudando rápido de expressão e baixando a cabeça após ter simulado uma suposta tristeza.
Mas para alívio de John, os dois acabam se convencendo e, comovido, Luís senta logo ao lado dele e passando-lhe as mãos sobre os ombros, fala com um sorriso de conforto:
-     Você vai conseguir, cara! A gente está do seu lado.
-     É isso mesmo! A gente vai sempre estar. Confirma Ciro.
Logo John encontra-se impressionado e comovido com a atitude dos dois e pergunta, admirado os olhando:
-     Mesmo? E por que fazem isso?
-     Como assim? Porque somos seus amigos, cara! Fala Luís estranhando a expressão de surpresa de John.
-     Amigos? M-meus... Amigos? Pergunta John.
-     É! É pra essas coisas que os amigos servem, sabia?! Fala Ciro sentando-se logo do outro lado de John e passando as mãos também sobre seus ombros apoiando-os sobre os de Luís que já estavam lá. E John fica pensativo e com uma sensação de peso.
Após alguns longos segundos os dois se desprendem do caloroso abraço e Ciro comenta ainda curioso:
-     Me diz uma coisa, John. Hoje de manhã fui à casa do João e ele me parecia bastante assustado. Ele falou que você tinha mudado. Que está muito mudado. Ele falou que ontem à noite vocês foram pra usina.
-     Fomos. Confirma John.
-     À noite? Na usina? Nossa!! Que coragem! Fala Luís.
-     Ele falou que tinha uma aranha caranguejeira em cima dele e você pegou e ficou a segurando por um bom tempo. Foi? Pergunta Ciro admirado e enojado.
-     Foi. Mas ela era bem mansinha e simpática. Fala John.
-     O que? Você pegou mesmo numa aranha caranguejeira? Pergunta Ciro assuntando-se com Luís.
-     Mansinha? Simpática? Nossa! Fala Luís surpreso.
-     Por quê? Vocês também têm medo dela?
-     Você só pode ta de brincadeira com a gente. Pegou numa aranha daquelas e ainda faz esse tipo de pergunta? Pergunta Ciro se olhando com Luís por não compreenderem John.
-     Bem... O João também falou que ele e o Pedro te acharam estranho demais e acabaram correndo, mas você os surpreendeu aparecendo do nada assim como um fantasma. Fala Ciro fazendo John recordar tudo em silencio.
-     Entendo... Comenta John com o olhar parado e fixado no chão e um sorriso incerto.
-     Pode um negócio desses?! Fala Luís após dar um surto de risos discretos balançando a cabeça negativamente.
-     Ele tem uma imaginação e tanto, não acham? Fala John aproveitando o momento de risos de Luís.
-     Ele falou que você pegou o Pedro pelo pescoço e ficou o sufocando. Daí ele se vendo em desespero sem poder fazer nada, saiu correndo em disparada pra casa chorando. Fala Ciro.
Nesse momento Luís desmancha o sorriso e John cai na gargalhada falando:  -  Isso é o que eu chamo de imaginação! Esse cara deveria ser diretor de novela mexicana!
-     Isso é verdade ou uma meia-verdade? Pergunta Ciro.
-     Por quê? Pergunta John desmanchando o sorriso.
-     Porque fomos hoje à casa do Pedro e ele não estava lá. A mãe dele estava muito nervosa e chorando. Ela perguntou se a gente sabia onde ele estava. Fala Ciro olhando fixamente para John um pouco desconfiado.
-     E o que vocês responderam? Pergunta John sem graça.
-     Ué?! Que não! Responde Luís.
-     De fato a gente não sabe mesmo e também porque a gente não queria se envolver nesse rolo e, principalmente, comprometer o João que sabia de uma parte da história. Fala Ciro repreendendo John com o olhar cada vez mais.
-     A gente queria saber primeiro se você estava mesmo com eles dois na usina ontem e se você sabe do paradeiro do Pedro.
Fala Luís olhando para os dois sem parar.
-     É claro que eu vi! Ele estava aqui há pouco tempo e eu acho que já deve está em casa uma hora dessas. Fala John.
-     Você tem certeza? Pergunta Luís surpreso.
-     Escuta. Quando vocês foram lá quem estava na casa dele? Pergunta John meio curioso.
-     Só a mãe, o pai e a irmãzinha dele. Fala Ciro.
-     Por quê? Pergunta Luís.
-     Por nada. Só pra saber mesmo... Sorri John.
-     Então a gente vai lá agora mesmo. Não vamos sossegar enquanto essa história não se resolver. Fala Ciro levantando com Luís, bastante apressados para saírem.
-     Então tudo bem. Até logo. Depois me contem o que aconteceu. Certo?! Propõe John se despedindo dos dois.
-     Tudo bem. Até logo! Fala Ciro e os dois saem.
Ao chegarem ao portão, Caroline surpreende-os vindo do corredor e fala baixinho se aproximando:
-     Ciro! Luís! Me desculpem mas eu estava ouvindo a conversa e achei um pouco estranha. Se importam se eu acompanhar vocês? Quero acompanhar tudo isso de perto.
-     Claro! Vamos com a gente. Estamos indo pra lá. Fala Luís sorrindo e pondo a mão em seu ombro para apressar-lhe.
-     Mas você avisou sua mãe? Quer dizer, será que ela não vai se importar se você sair sem avisar? Pergunta Ciro.
-     Tudo bem. Ela acha que eu estou no meu quarto dormindo. Às vezes eu durmo à tarde. Sorri Caroline.
-     Tem certeza? Pergunta Ciro insistindo.
-     Vamos Logo! Aborrece-se Caroline puxando os dois.

06. A casa de Pedro

Depois de aproximadamente uns quinze minutos, os três chegam à casa de Pedro e logo são recebidos por Cecília, irmã de cinco de anos de Pedro, abrindo o portão com um lindo sorriso segurando uma boneca de pano colorida contra o peito e fala:
-     Vocês acharam o meu irmão? Sabem onde ele está?
-     Ainda não, minha lindinha. Mas a gente vai encontrar. Fala Luís acariciando os cabelos de Cecília com um sorriso simples, porém sincero na intenção de confortá-la.
-     É... Pelo visto ele ainda não chegou como o John tinha nos avisado. Sussurra Ciro cochichando no ouvido de Caroline.
-     Bem que eu estava achando isso muito estranho... Era bom demais pra ser verdade. Comenta Caroline decepcionada e apertando os lábios, um contra o outro a olhar Cecília ansiosa.
-     Quem está aí, Cecília? Pergunta dona Silvia gritando lá de dentro. Logo os quatro se olham rapidamente e Cecília grita:
-     O Luís, a Caroline e o Ciro, mamãe!
-     A gente pode entrar, Cecília? Pergunta Caroline.
-     Pode! A mamãe está muito preocupada e o papai não pára de ficar rodando pela casa. Fala Cecília meio triste.
-     A gente vai dar um jeito. Não se preocupe tudo bem?! Fala Ciro assanhando carinhosamente os cabelos de Cecília.
-     Ai! Pára! Meu cabelo! Fala Cecília aborrecida tentando pentear-se com sua pequena mão enquanto os três entram.
-     Pára de assanhar o cabelo da menina, seu chato! Fala Caroline inconformada dando-lhe uns tapinhas de leve.
-     Oh! Desculpa! Lamenta-se Ciro sorrindo.
      Chegando os quatro na sala, dona Silvia e Sr. Felipe já estão a espera dos três com esperança de receberem alguma boa notícia a fim de acabarem com aquela angústia sem fim.
-     Ciro, Luís e Caroline! Meus queridos. Que visita boa! Fala dona Silvia com um sorriso os cumprimentando.
-     Dona Silvia! Sr. Felipe! Como estão? Pergunta Luís.
-     Ah meu filho! Aflitos! Não agüento mais essa angústia! Qualquer coisa menos isso! Lamenta-se Sr. Felipe triste.
-     Não diga isso, querido! Há coisas que seriam pior que isso. Tenha fé que tudo vai dar certo. Fala dona Silvia.
-     Dona Silvia, Sr. Felipe. Gostaria de pedir um favor se não for muito abuso. Fala Caroline meio desajeitada.
-     Fale minha querida. Sorri dona Silvia.
-     Posso usar o banheiro? Estou um pouco apertada... Fala Caroline meio constrangida olhando para o chão.
-     Claro! Cecília a acompanhe até o banheiro enquanto conversamos com os meninos. Fala Sr. Felipe.
-     Sim, papai! Venha Caroline. Por aqui... Fala Cecília pegando na mão de Caroline e a levando.
-     Que fofa! Muito educada essa menina! Sorri Ciro.
-     É a nossa pequena princesa! Sorri dona Silvia.
-     Mas nos contem. Vocês têm alguma notícia do Pedro. Já descobriram onde ele possa estar? Pergunta Sr. Felipe.
-     A gente vem da casa do John e ele falou que estava a pouco conversando com o Pedro, mas ele tinha acabado de sair. Fala Ciro arrancando sorrisos surpresos dos pais de Pedro.
-     É! Ele nos garantiu que o Pedro já podia estar em casa uma hora dessas. Então a gente veio pra conferir. Fala Luís.
-     Em casa? Mas meu filho não chegou até agora. Mas o que foi que deu no John? Que brincadeira de mau-gosto é essa agora? Fala Sr. Felipe bastante aborrecido e contrariado.
-     Calma, Felipe! Deve haver uma explicação. O John não brincaria com uma coisa tão séria como essa. Fala dona Silvia.
-     Mas eu não entendo! O John parecia tão convicto no que dizia! Não pareceu que ele estivesse brincando. Fala Ciro.
-     Será que o Pedro não deve ter parado em algum lugar no meio do caminho? Sei lá... Comenta Luís supondo.
-     Ele não faria uma coisa dessas com os pais dele! Depois de tantas horas longe de casa ainda iria parar no meio do caminho pra conversar? Não. Acho que não. Fala dona Silvia.
-     Ele não se atreveria. Iria levar uma bela surra quando chegasse em casa! Fala  Sr. Felipe indignado olhando os lados.
-     Calma Felipe! O nosso Pedro não é assim. Você sabe disso! Fala dona Silvia assustada tentando acalmá-lo.
-     Mas o John falou que... É estranho! Onde o Pedro pode estar então se ainda não chegou? Pergunta Luís inconformado.
-     É exatamente o que eu gostaria de saber. Fala Sr. Felipe.
De repente um barulho estranho de algo caindo vem do quintal surpreendendo os quatro que se olham em silêncio.
-     Vocês ouviram? Pergunta dona Silva preocupada.
-     Mas o que foi isso? Pergunta Ciro surpreso.
-     Não sei. Parece que foi algo de ferro. Fala Luís.
-     E veio do quintal! Eu vou ver! Fala Sr. Felipe indo.
-     Cuidado querido! Pode ser um ladrão! Fala dona Silvia.
-     A gente vai ver também! Fala Luís indo com Ciro.
-     Ai meu Deus! Tomem cuidado! Insiste dona Silvia.
      Quando chegam ao quintal, para a surpresa dos três, Pedro está lá sentado no canto da parede com os braços envolta das pernas e a testa sobre os joelhos a estremecer.
-     Filho! Fala Sr. Felipe indo imediatamente de encontro a seu filho depois do choque de felicidade por tê-lo encontrado.     Nesse exato momento após ter escutado, dona Silvia vem correndo para conferir o que houvera escutado.
-     Pedro! Até que enfim você apareceu! Sorri Ciro.
-     Filho! Meu filho querido! Grita dona Silvia o abraçando muito nervosa e feliz pelo fim de toda aquela angustia.
-     Graças a Deus... Sussurra Luis aliviado e sorrindo.
-     Mas onde você esteve? O que aconteceu? Nós ficamos muito preocupados. Já estávamos pensando no pior, filho! Fala Sr. Felipe abraçando seu filho junto com sua esposa.
-     Eu...
-     Venha! Vamos tomar um banho e comer algo. Deve estar faminto e precisa descansar. Depois conversaremos com mais calma. Decide dona Silvia após ter interrompido Pedro.
-     Tem razão. Afinal o pior já passou. Deixamos o interrogatório pra depois. Uma coisa de cada vez. Sorri Sr. Felipe o abraçando e dando-lhe um beijo na testa.
-     Mas a Caroline ainda ta...
-     Mamãe. A Caroline não ta mais no banheiro. Fui até a cozinha tomar água e quando voltei, ela já tinha saído. Chega Cecília interrompendo Luís.
-     Nossa! O que terá acontecido? Fala dona Silvia.
-     Deixem pra lá! Ela com certeza deve ter uma explicação. Depois ela aparece e esclarece. Propõe Sr. Felipe.
-     E-eu estou um pouco apertado. Fala Pedro se retorcendo
-     Vamos! Venha logo! Fala dona Silvia o acompanhando.
-     Que estranho... Pensa Luís um pouco desconfiado.
-     Legal! O John e o João precisam saber disso! Vamos lá contar a eles agora. Fala Ciro bastante ansioso.
-     Tudo bem. Vamos logo à casa do João que é um pouco mais perto. Propõe Luís ainda preocupado com o que houve.
-     Até logo, meninos! Obrigado pela visita. Sorri Sr. Felipe
      Então os dois se vão e Sr. Felipe pergunta para si:
-     Mas o que será que houve com a Caroline? Ela saiu sem avisar. Tento imaginar algum motivo evidente.
-     Será que o papel higiênico tinha acabado papai? Pergunta Cecília preocupada o olhando inocentemente.
      No caminho de ida para a casa de João os dois um pouco intrigados com o misterioso aparecimento de Pedro e o sumiço de Caroline, Luís comenta com o olhar um pouco perdido:
-     Você não achou estranho o modo como Pedro apareceu?
-     Se achei? Fala sério...
-     Oi meninos! Caroline os surpreende aparecendo por trás com um sorriso meio sem graça e as mãos se abraçando entre si.
-     Nossa! Caroline? Você... V-você... Fala Ciro assustado.
-     Onde esteve senhorita assombração?! O que houve com você que sumiu daquele jeito sem deixar rastro algum? Você deixou todo mundo preocupado! Pergunta Luís inconformado.
-     Sem falar da forma como surge... Fala Ciro chateado.
-     Desculpem. Eu precisei sair. Fala Caroline cabisbaixa.
-     Como assim? Do que você está falando? Pergunta Ciro.
-     É que eu... Fico meio sem graça de explicar... Eu...
-     Você o quê? Pode falar. Confie em nós! Sabe que pode contar com gente. Fala Luís sorrindo para confortá-la.
-     Bom, eu... Eu sangrei. Fala ela olhando para o chão.
-     Você o quê? Como assim “sangrei”? Pergunta Luís.
-     Nossa! Você já menstrua com essa idade? Como você é precoce! Eu to impressionado! Fala Ciro admirado.
-     Não é nada disso! Eu sangrei pelo nariz. Nunca ouviu falar em hemorragia nasal? Pergunta Caroline aborrecida.
-     Ah bom. Por um instante eu pensei que...
-     E por que não pediu ajuda? Pergunta Luís.
-     É que eu fiquei nervosa! Isso nunca tinha acontecido comigo. A minha reação foi de sair correndo pra casa!
-     Tudo bem. Parece coisa simples, mas nem eu saberia o que fazer. Também nunca passei por isso. Fala Luís.
-     Nem eu. Concorda Ciro tentando imaginar.
-     Então vocês me entendem. Sorri Caroline.
-     É. Pode ser... Sussurra Luís meio indeciso a olhando.
-     Já ficou sabendo que o Pedro apareceu?!
-     É sério?! Ai que legal! Mas... Onde ele estava? Como e onde vocês o acharam? Pergunta Caroline intrigada.
-     Ele apareceu nos fundos da casa. Tava todo sujo e suado. Parecia um animal acuado. Foi de repente.
-     Que estranho. Ele não explicou como chegou ali?
-     Ainda não. A gente espera que ele esclareça... Essa história por enquanto está muito mal-contada. Fala Luís.
-     Bom. Então vamos para a casa do João contar a novidade. Chega de conversa! Propõe Ciro.
-     Estamos indo prá lá agora. Você vem com a gente?
Convida Luís bastante ansioso.
-     Claro! Vai ser interessante. Vamos lá! Sorri Caroline.
-     Vejam! Não é a sua mãe, Caroline?! Pergunta Ciro avistando dona Abigail vindo com umas sacolas.
-     Droga! Ela não pode me ver! Fala Caroline se escondendo atrás dos dois rapidamente.
-     Por quê? Pergunta Luís a olhando discretamente.
-     Não lembram que eu saí sem avisar?
-     E o que a gente faz agora? Pergunta Ciro.
-     Não se movam! Tentem agir com naturalidade. Não deixem ela  perceber que eu estou aqui!
-     Oi meninos! Como vão?! Sorri dona Abigail acenando.
-     Olá dona Abigail! Bem. E a senhora? Sorri Luís.
-     Estou bem. Fui fazer umas compras.
-     E o pessoal de lá? Como está? Pergunta Ciro.
      De repente, chateada, Caroline lhe dá um beliscão.
-     Ai!
-     O que foi? Pergunta dona Abigail preocupada.
-     Nada! Acho que foi algum borrachudo. Fala Ciro sem graça olhando para Luís e para dona Abigail.
-     Borrachudo? Que estranho.
-     Deve ser impressão dele, dona Abigail. Ele deve ta com alguma coceira. Acho que não tem tomado banho hoje.
-     Não tomou banho ainda hoje? Nossa! É provável.
-     Mas eu já tomei banho hoje sim! Ai! Caroline lhe dá outro beliscão com mais força.
-     Pode ser que não tenha tomado direito. Fala Luís.
-     Bem. Então até logo. Juízo! Sorri dona Abigail indo.

07.  Na casa de João

      Chegando os três na casa de João eles o surpreendem com um sorriso misterioso se olhando entre si.
-     Que sorrisos são esses? Aconteceu alguma coisa boa? Pergunta João bastante intrigado os olhando com outro sorriso.
-     Ué?! Tenta imaginar. Propõe Luís.
-     Não vão me dizer que... Espera aí. O Pedro apareceu?!
-     Ahá! Na mosca! Comemora Ciro.
-     Como foi que você adivinhou? Pergunta Caroline.
-     Ora! Era óbvio. Era a única coisa que tava pendente. Mas vamos logo. Me contem o que aconteceu em detalhes!
-     Bom. Foi estranho. A gente falou com o John e ele nos garantiu que o Pedro estaria lá. Ele tinha acabado de sair da casa do John. A gente foi correndo para a casa do Pedro pra conferir. Só que quando chegamos lá ele não tava. Os pais dele ficaram chateados com o mal-entendido, mas enquanto nós conversávamos ouvimos um barulho vindo lá dos fundos. E ele tava lá todo sujo e suado com uma cara de assustado. Explica Luis enquanto João, que imaginava tudo passo a passo, confirmava balançando a cabeça com bastante ansiedade.
-     Que estranho! Mas como foi que ele escapou do John e foi parar ali?
-     Ele o quê? Do que você ta falando? O que o meu irmão tem haver com isso? Pergunta Caroline um pouco surpresa.
-     Calma Caroline. Está tudo bem. É provável que o João tenha só sonhado e se confundido. Sorri Ciro.
-     É. Isso mesmo. Essas coisas podem acontecer. Fala Luís.
-     Não! Eu não me enganei coisa alguma! Isso realmente aconteceu! Eu tava lá! O John agarrou o Pedro pelo pescoço e ficou sufocando ele. Eu só tive ação de fugir! Explica João.
-     Tudo bem João. Essa estória de novo não. Quando vai considerar a hipótese de que isso tudo possa ter sido só fruto da sua imaginação?! Não acha isso um pouco absurdo? Pergunta Luís num sorriso de conforto tentando o convencer.
-     É, João. Não faz sentido. O John estava em casa. E de uma forma ou de outra o Pedro já apareceu. Provavelmente estava na casa de algum outro amigo. Fala Ciro insistindo.
-     Ahh! - Num ranger de dentes, João vira as costas para os três e soca a parede, furioso, fazendo spyker, seu cachorro, latir - Não acredito que aquele pilantra conseguiu ganhar vocês na conversa e me fez passar por um maluco que fala absurdo!
-     Ei! Meu irmão não é nenhum pilantra! Fala Caroline.
-     E você do lado dele não me surpreende nenhum pouco. O que veio fazer aqui? Isso não é conversa para menininhas!
-     Eh! Calma aí, João! Nós que a convidamos pra vir com a gente. É natural que ela defenda ele. É do irmão dela que você está falando! Fala Luís tentando acalmá-lo protegendo Caroline
-     E ela não tem culpa. Não descarregue nela a raiva que você sente pelo John! Fala Ciro um pouco aborrecido.
-     Essa não! Meus amigos contra mim agora! Lamenta João um pouco nervoso andando pela sala.
-     Não. Não estamos contra você. Só estamos tentando te convencer de que...
-     De novo não! Não me venham com essa! Interrompe João ficando mais alterado com a insistência.
-     Calma, brother! Pode ter sido um sonho ruim! Fala Ciro
-     Não! Não! Não! Ele colocou vocês contra mim! E isso sim é um sonho ruim! Isso não pode estar acontecendo comigo!
-     Dá pra parar?!  Ninguém ta contra você! Fala Luís.
-     Por que você não pára um pouco de olhar só pro seu nariz e tenta acreditar que pode estar enganado?! Fala Ciro.
-     E por que vocês não tentam ao menos acreditar em mim dessa vez? Falam de si e do John. E eu? Onde é que eu fico?
-     É complicado! Não existe nenhuma evidencia do que você diz! Que provas você tem? Você nos deixa sem escolha se alterando dessa maneira inutilmente! Justifica Luís.
De repente o nariz de Caroline começa a sangrar e Ciro percebe interrompendo a conversa: - C-Caroline... O seu...
-     O nariz dela ta sangrando! Fala João admirado.
-     Essa não! Outra vez! Fala Luís preocupado.
-     T-tenho que ir embora! Fala Caroline olhando as pontas dos dedos molhadas de sangue e sentindo o gosto do escorrimento que ia de encontro a sua boca.
-     Outra vez? Desde quando ela tem esse problema? Pergunta João intrigado. E nesse momento Caroline sai.
-     Parece que é recente! Responde Ciro Bastante preocupado olhando para a direção que ela saiu.
-     E é assim? Constante? Pergunta João.
-     Não se sabe. Acho que é quando ela fica nervosa. Fala Luís hora olhando para João e hora olhando para onde ela foi.
-     Luís! Acho que a gente devia acompanhar ela. Talvez ela piore. Aí eu vou me sentir culpado por não ter feito nada. Fala Ciro ansioso para sair sem parar de olhar para fora.
-     Tem razão! João, a nossa conversa vai ter que ficar pra depois! Agora a gente precisa ir. Propõe Luís saindo com Ciro.
-     Tudo bem. Depois me avisem como ela ficou. Se apressem senão vocês irão perder ela de vista. Até logo!
-     Até mais! Fala Ciro fechando o portão em seguida.
-     Que estranho. É cada uma... Mas será que eles têm razão? Será que eu posso ter sonhado mesmo?
Nesse momento faz-se um barulho estranho e os gemidos de dor de Spyker vindos lá dos fundos do quintal assustam João.
Preocupado, João vai aos poucos até a porta dos fundos e pergunta: - Spyker? Está tudo bem aí, amigão?!
Mas para sua maior preocupação Spyker não se manifesta.
Chegando ao quintal, João estremece ao olhar para o local onde Spyker fica e não o encontra. Sua comida e água pelo chão.
De repente João ouve o mesmo barulho estranho de outrora vindo do beco do jardim de frente da sua casa para o quintal.
Mesmo com medo, João dirige-se até o beco a passos lentos.
Chegando no beco João se depara com seu cão rangendo num franzir assustador mostrando suas presas pontiagudas fixando seu olhar que o apavora fazendo João recuar aos poucos.
-     Calma. Sou eu, amigão. Não ta mais me reconhecendo?
De repente Spyker o apavora num latido infernal e sai em disparada na direção de João que, assustado corre tropeçando em seguida no prato de comida vazio e vai rastejando de costas rapidamente a observar o bichano enfurecido se aproximar. Ao chegar de encontro à parede João se vê completamente sem saída e Spyker, vindo velozmente, salta para atacá-lo. E João grita.             João cobre o rosto com os braços para tentar se proteger e, de repente, no meio do salto, Spyker desaparece. Em seguida ouvem-se discretas gargalhadas macabras ecoarem pelo quintal.
Assustado, João se gruda nas paredes olhando para todos os lados do quintal procurando de onde a voz possa ter vindo.
De repente, para seu desespero, João vê John cruzando a esquina do beco vindo a sorrir em sua direção. Ao chegar frente a frente com João, ele pergunta: - Como vai?
-     John?! O que aconteceu com você?
-     Comigo? Nada. Mas sabe o que vai lhe acontecer?
-     Vai me matar? O que você fez com o Pedro?
De repente John transforma-se em Pedro.
-     M-meu Deus! Você não é o John! Quem é você?
Logo, Pedro transforma-se em Leonardo o apavorando.
-     Meu nome é Leonardo. Mas posso ser quem ou o que eu quiser. Qualquer um dos seus amigos ou até mesmo seu cão.
-     Por que ta fazendo tudo isso? O que foi que te fiz pra querer me matar? Pergunta João em desespero contra a parede.
-     Está tentando me prejudicar. Está interferindo em meus planos. Em resumo, você está no lugar errado e na hora errada. E ainda por cima não consegue manter sua boca calada!
-     Você só pode ser fruto da minha imaginação! Se transformou em meu cachorro e em seguida nos meus dois amigos. Não dá pra acreditar nisso tudo! Não é real!
-     Ah não?! Vai me dizer que eu, João, não acredito nisso?! Pergunta Leonardo transformando-se em João a sorrir.
-     M-meu Deus! Você só pode ser o capeta! O que fez com meus amigos e meu cachorro? Onde estão eles?
-     Calma! Seus amigos estão bem. Ainda. E quanto ao seu cachorro... Olhe bem para o local onde ele fica.
Ao olhar, João vê Spyker dormindo amarrado com sua comida e sua água por perto de modo organizado.
-     Exatamente como antes. Será que você está enlouquecendo mesmo e não se dá conta disso? Que trágico...
-     Não. Deve ser apenas um pesadelo. Daqui a pouco eu vou acordar e tudo vai voltar ao normal! Eu estou dormindo!
-     Eu acho que não. Fala Leonardo rindo ao enfiar sua unha nas costas da mão esquerda de João que grita.
Nesse momento dona Sandra, mãe de João, chega à porta da cozinha e o encontra sentado contra a parede sozinho e assustado com sua mão direita assentada sobre a esquerda.
-     O que aconteceu? O que você está fazendo aí sentado? Pergunta dona Sandra aproximando-se e agachando perto dele.
-     A senhora não vai acreditar! Se você não chega a tempo eu teria sido morto pelo capeta! Ele se transformou no John, no Pedro e no Spyker. Derramou a água e a comida dele e depois pôs tudo de volta no lugar. Foi assustador, mãe!
-     Tem certeza de que está tudo bem? Andou assistindo O Exorcista, A Profecia ou coisa do tipo?
-     Não acredita em mim, não é?! Também não acreditou no que eu disse ontem à noite sobre o Pedro, não foi?!
-     Desculpe, filho. É logicamente impossível!
-     Agora você vai acreditar! Ele deixou um furo na minha mão que fez com a unha e... Ué?! Cadê? Mas tava aqui! Tava até sangrando! Eu juro! Fala João bastante inconformado tentando se explicar.

08.  Meia Noite

Chegando a sua casa por volta das sete horas, John é surpreendido por sua mãe que pergunta aborrecida:
-     Isso são horas? Saiu sem avisar e passou o dia fora? Seu pai não vai gostar nada disso! Agora vá tomar banho pra jantar
-     Eu já jantei na casa do João. Passei o dia por lá.
-     Era de se esperar. “Galo onde canta, janta”. Então vá tomar seu banho e depois se entenda com seu pai!
-     Aquele velho chato outra vez! Ninguém merece! Pensa John chateado tentando imaginar o sermão.
Após terminar o banho e pronto para sair, John é surpreendido por Sr. Fernando que o olha desconfiado:
-     Onde pensa que ainda vai? Passou o dia fora e já vai sair outra vez? Pra onde vai tanto? Posso saber?
Logo John o olha fixamente de um modo estranho fazendo Sr. Fernando sentir-se diferente como se estivesse sendo manipulado: - Gostaria de saber se pode me permitir ir à casa do meu amigo Pedro?! Não o vi o dia inteiro. Sorri John.
-     Claro. Vá. Tome cuidado. Responde Sr. Fernando um pouco paralisado fixando seu olhar em John.
-     Tudo bem. Obrigado... Papai. Sorri John o abraçando.
Ao passar pela porta, John cruza com sua mãe.
-     Aonde vai, John?! Pergunta dona Abigail admirada.
-     Vou na casa do Pedro. Papai deixou. Sorri John.
-     Ele deixou? Assim? Sem mais nem menos?
-     Foi. Pode perguntar a ele. Até logo!
Após John sair dona Abigail se aproxima de Sr. Fernando que continua paralisado e pergunta intrigada: - Querido?! É verdade que permitiu que John fosse à casa de Pedro?
Mas Sr. Fernando não responde.
-     Querido?! Fernando?! Fernando!
-     Hã?! Falou comigo, querida?!
-     Está se sentindo bem?!
-     Sim! Estou. Por quê?
-     Deixou que o John fosse à casa do Pedro?!
-     Deixei. Foi estranho... Mas eu deixei... Responde Sr. Fernando com um olhar meio perdido sendo observado por dona Abigail preocupada com sua reação.
Pouco tempo depois, Pedro chega em casa após ter saído sem avisar: - Mãe! Coloque minha janta. Acho que vou dormir cedo hoje. Estou cansado. Prometo que amanhã conversaremos.
-     Tudo bem, querido. Você merece mesmo um bom descanso. Amanhã conversaremos com mais calma. Responde dona Silvia o confortando com um pequeno sorriso.
Após jantar, Pedro se despede dos pais e vai para o quarto trancando a porta logo em seguida. Em meio ao seu quarto um pouco escuro, Pedro, após um sorriso macabro, transforma-se em John e desaparece. John então aparece em seu quarto e, após um rápido suspiro, abre a porta assustando dona Abigail:
-     Meu Deus! Que susto, menino! Quer me matar do coração? Que horas foi que você chegou que não eu percebi?
-     Provavelmente você poderia estar no quarto na hora que cheguei. Responde John abrindo um pequeno e falso sorriso.
Nesse exato momento, Caroline, que estava escutando toda a conversa chega lá de fora e comenta com um sorriso malicioso o olhando fixamente: - Nossa! Parece até mágica. Porque eu estava no portão desde a hora que vi você sair e não percebi você entrar. Sei lá... Na menor das hipóteses talvez eu possa ter cochilado por um pequeno instante, não é mesmo?!
Ofendido pelas palavras sarcásticas, John a olha com certa repulsa e, sem perceber, está sendo observado por sua mãe.  
Preocupada com a expressão estranha de John dona Abigail comenta com um tom de autoridade olhando para os dois:
-     Olha! Não estou gostando do modo como os dois estão se comportando um com o outro. Não quero ver ou ouvir sobre mais brigas de vocês nessa casa, ouviram os dois?! E você, senhorita, pare de ficar provocando seu irmão!
-     Eu?! Mas eu não disse nada demais mamãe! Foi apenas um comentário inocente. Eu realmente devo ter me distraído por não ter percebido ele chegar!
-     “Comentário inocente”. Sei... Eu senti certa ironia nesse seu comentário. Eu conheço a senhora e a sua língua.
-     Nossa! Agora vai ficar pegando no meu pé! Fala sério!
-     Tudo bem mãe! Não vamos brigar por isso. Melhor pararmos antes que o pai perceba. É uma discussão inútil. Com certeza ela não deve ter tido a intenção, não é Caroline?! Supõe John a olhando fixamente com um sorriso incômodo.
-     Claro... Irmãozinho. Sorri ela debochando.
-     Caroline! Dona Abigail se ofende com mais uma ironia.
-     Posso saber o que está se passando de errado aqui? Pergunta Sr. Fernando surpreendendo os três com rispidez.
-     É essa menina...
-     Nada pai. Está tudo bem. Foi só mais uma das piadas de mau gosto da Caroline que incomodaram a mãe. Só isso. Responde John após interromper dona Abigail.
-     Hum! (Aborrecimento) Eu vou pro meu quarto! Fala Caroline bastante inconformada saindo do círculo.
-     Sabe que não admito falta de respeito com a sua mãe! Depois conversaremos, mocinha! Responde Sr. Fernando. 
Algumas horas depois, no silêncio daquela fria madrugada, John aparece de repente no quarto de Caroline e aproximando-se da cama dela num leve sussurrar, fala: - Boa noite...
Ao acordar ela se assusta com a repentina aparição e John a adverte sutilmente com o dedo indicador em sua própria boca.
Num sussurrar temeroso ela pergunta: - O que você quer?
-     Não acha que já está na hora de você sair de cena?
-     C-como assim? Do que você ta falando?
-     Que você está se destacando demais. O papel de protagonista é meu. Eu determino as coisas por aqui!
-     As coisas? Que coisas? Você chega do nada aqui, sequestra meu irmão, faz uma confusão de identidades e contratempos e se acha no direito de reclamar de algo?
-     Confusão de identidades? Seja direta, sua sabichona!
-     Que história é essa de hemorragia nasal?
-     Hã?!
-     O Luís e o Ciro vieram aqui preocupados comigo perguntar se eu estava melhor do escorrimento de sangue no nariz. Me perguntaram também se era certo eu esconder esse problema dos meus pais. Não entendi no começo, mas logo imaginei que tivesse sido alguma obra sua. O que pretende se passando por mim? Aliás, por todos nós? Aonde você quer chegar e o que fez com meu irmão?
-     Nossa! Você é muito esperta e atrevida. De fato não tem noção de perigo. É uma tola por esperar por tempos ruins.
-     Não tenho medo de você! Vai precisar fazer melhor que isso tudo pra conseguir me assustar!
-     Definitivamente devo confessar que estou impressionado. Não sei o que diabos anda lendo ou assistindo, mas, com esse notável conhecimento e astúcia desproporcionais a sua idade, admito que não seja  tão insignificante e soe como uma ameaça aos meus planos. Isso me força a tirá-la de cena.
-     O que vai fazer? Vai me matar? Caroline estremece.
-     Não. Você é muito inteligente pra morrer. E como eu sou bom sujeito e vou provar que sou, vou levá-la até o seu irmãozinho querido. Talvez isso compense suas iniciativas.
Sorri John colocando a palma da mão sobre o rosto de Caroline a fazendo adormecer. Logo ele some levando-a consigo para o local destinado: A usina abandonada.
Sr. Chico, um catador de latas, idoso de pele morena que geralmente dorme nas ruas mesmo tendo sua humilde casinha de taipa, acidentalmente presencia tudo após um bocejo e um brusco despertar para enrolar-se com seus velhos e sujos pedaços de pano. Vendo Leonardo abrir uma porta no chão depois de tirar uma lona e pedaços de papelão Sr. Chico tenta enxergar discretamente para acreditar no que presenciava.
Após colocar Caroline no subterrâneo secreto da usina, Leonardo fecha a porta pondo a lona e os pedaços de papelão de volta e dá uma rápida olhada no local para ver se encontrava algum álibi ou coisa do tipo a fim de sabotar seus feitos. Sem perceber que Sr. Chico estava o observando todo tempo, ele desaparece num desvanecer como a fumaça o admirando.
Impressionado com o que havia presenciado, Sr. Chico balança a cabeça negativamente após um esfregar de olhos e uma última observada. Intrigado, Sr. Chico volta a dormir.
Por volta de meia noite e meia na casa de Pedro, Sr. Felipe, um pouco incomodado com o calor do seu quarto, levanta-se para tomar água. De repente quando abre a geladeira com o copo na mão: - Pai...
Pedro o surpreende por trás o fazendo derrubar o copo de vidro no chão: - O que faz acordado uma hora dessas? Parece mais uma assombração. Fala Sr. Felipe chateado observando os estilhaços de vidro espalhados pelo chão.
-     Desculpe se o assustei. Não tive intenção. Sorri Pedro.
-     Tudo bem. Mas você não me disse o porquê de estar acordado uma hora dessas. O que houve? Pesadelos?
-     Antes fosse... (Risos) É que eu acordei com uma fome. Tem algum pedaço de bolo sobrando por aí?
-     Estranho. Acordar no meio da noite pra comer? Tudo bem. Vá buscar a faca que eu corto pra você.
De repente Sr. Felipe sente uma forte dor e, de olhos arregalados, cai vagarosamente por cima dos estilhaços.
Pedro houvera cravado impiedosamente a faca que seu Felipe tinha pedido nas costas de seu pai. Com um sorriso macabro Pedro transforma-se em Leonardo e sussurra no canto do ouvido de Sr. Felipe enquanto ele agonizava e seu sangue se espalhava: - Acho que é melhor voltarmos a dormir. Talvez o sono tenha falado mais alto... Papai. Boa noite. Sorri Leonardo desaparecendo após ter dado um leve beijo em sua testa.
Quando ele desapareceu a porta da geladeira fechou-se e os pedaços de vidro se recomporam consertando o copo no chão.
No dia seguinte, por volta das cinco e meia, dona Silvia dá por falta de seu marido na cama e levanta-se para encontrá-lo. Chegando à cozinha dona Silvia percebe algo de estranho no ambiente e vem caminhando de encontro à geladeira. Aos poucos em quanto vinha caminhando ia percebendo o chão repleto de sangue. Logo seu coração começa a bater mais forte e rápido conforme ela aguardava o pior que estava por presenciar.
Chegando de frente a geladeira dona Silvia se depara com o pior: Felipe morto de olhos abertos sobre uma poça de sangue com uma faca cravada nas costas. Um grito é a única reação.
O grito de dona Silvia é tão alto e agudo que acaba acordando não só Pedro e Cecília como também uma grande parte da vizinhança. Nessa hora Cecília acorda-se e quando vem de encontro a sua mãe Pedro a puxa pelo braço e a abraçando sussurra em seu ouvido para tentar confortá-la: - A mamãe está bem. O problema não é com ela. Mas é melhor ficar aqui. O papai não está bem e você não vai gostar de ver o que aconteceu.
-     O papai se machucou?
-     Foi. Mas não se preocupe. A mamãe sabe o que fazer.
Nessa hora dona Silvia chega até eles desesperada e, chorando sem parar, os abraça fortemente fazendo Cecília chorar também. Então Pedro assenta sua cabeça no ombro de sua mãe e nesse tempo ele franze um discreto e obscuro olhar.

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